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"Última Parada 174" abre Festival do Rio

Filme reconstitui uma tragédia carioca

“Aqui se pratica o exercício da cidadania”. Esta é a frase de fundo que estampa uma parede do Instituto Padre Severino, famoso reformatório para menores infratores do Rio de Janeiro, enquanto Sandro do Nascimento, o “sequestrador do ônibus 174”, e tantos outros meninos passavam.

A frase é séria, mas poderia ser uma ironia. Ali não se vê qualquer resquício de prática de cidadania. Cidadania que também passou longe da vida de Sandro (ou Alessandro ou Alê da Candelária).

E são os caminhos que esse jovem percorreu até chegar ao seqüestro que parou o Rio em 2000 que são o mote de Última Parada 174, filme de Bruno Barreto que foi, recentemente, indicado pelo Ministério da Cultura para disputar uma vaga entre os cinco indicados ao Oscar 2009 de Melhor Filme de Língua Estrangeira.

É ele que vai também abrir o Festival do Rio, na próxima quinta (25), no Odeon. Considerando que o filme que abriu a edição do ano passado foi o blockbuster Tropa de Elite, que causou furor na noite de estréia, a obra de Barreto tem a difícil tarefa de manter o pique das festas de abertura do Festival.

Mas, se a tarefa vai ser difícil, a idéia é a mesma e parte dos problemas sociais do Rio. A violência, a dureza da vida nas favelas, o descaso do poder público, todos esses elementos estão presentes nos dois títulos.

A dura realidade com a qual Sandro do Nascimento teve que conviver durante sua curta passagem pelo mundo já havia sido (muito bem) mostrada em Ônibus 174, documentário dirigido pelo mesmo José Padilha que dirigiu Tropa... e que, segundo Barreto, o inspirou a recriar, de forma ficcional, a vida do seqüestrador do ônibus.

A narrativa do filme é contada através da vida de Sandro (vivido por Michel Gomes) e de Marisa (Cris Vianna), mulher que, em 1983, vê seu bebê Alessandro sendo retirado de seus braços pelo traficante que mandava na favela.

O menino Sandro perde a mãe que o criara, dez anos depois, e vai para as ruas até se tornar um dos sobreviventes da chacina da Candelária. Quando Marisa vê Sandro (que não sabia ler nem escrever) cantando um rap na televisão, ela passa a ter certeza que aquele é seu filho. É a partir daí que se desenvolve a história de uma mãe e um filho, ambos perdidos.

Sandro perdido passando por reformatórios, duras da polícia, assaltos, furtos e drogas. E uma mulher orfã de filho que passou a se dedicar a encontrar o menino que lhe foi tirado. Que se privou, inclusive, de ter outros filhos porque acreditava que, para ter outro, ela teria que encontrar aquele que foi seu primeiro.

O filme também mostra Walquíria (Anna Cotrim), personagem que representa a artista plástica Yvonne Bezerra de Mello, que, à época da chacina da Candelária, realizava um trabalho voluntário com os meninos de rua e que conhecia bem Sandro. É interessante ver que o menino enxergava naquela mulher as possibilidades de um futuro melhor. E que, quando ele se sente decepcionado com ela (ainda que ela tentasse ajudá-lo), tudo começa a degringolar.  

Jovens atores fazem um bom trabalho

Barreto não deixa dúvidas de que, apesar de baseado em fatos reais, seu filme é um retrato ficcional de uma história que simboliza tão bem a ausência de poder público no Rio. O filme é duro, não no sentido do excesso de violência como foram Cidade de Deus e Tropa de Elite. Mas na exibição de uma realidade incômoda de um menino que se vê abandonado de diversas maneiras.

E é por isso que, apesar de não trazer nenhuma grande novidade narrativa ou uma grande luz sobre os temas da desigualdade social e da violência no Rio (e essa nem era mesmo a intenção), o filme também incomoda. As boas atuações dos jovens atores, todos praticamente sem qualquer experiência, é louvável. Michel Gomes é mesmo parecido fisicamente com Sandro e faz um belo trabalho, com seus olhos sempre perdidos.

Marcello Melo Jr. (ator oriundo do grupo Nós do Morro), o Alê Monstro, inimigo que depois se tornou amigo de Sandro, e Gabriela Luiz, que interpreta Soninha, a paixão do protagonista, também se saem bem. 

Mas se a semelhança física de Michel com Sandro é visível, um fato chama a atenção: as atrizes que interpretam as duas meninas que ficaram por último com Sandro em sua “última parada”, a professora Geisa Firmo Gonçalves (morta pelo policial que tentou atingir Sandro) e a estudante Janaína Lopes Neves, não são parecidas fisicamente com as personagens da vida real.

Talvez tenha sido a maneira encontrada pelos realizadores do filme para preservar as imagens de pessoas que viveram um momento único, tão duro. Mas nada que tire o brilho da boa reconstituição daquele momento que dá, afinal, nome ao filme.     
 
É até provável que o filme de Barreto consiga mesmo ser um dos finalistas do Oscar 2009. O diretor tem experiência nisso, já que O que é isso, companheiro? conseguiu a façanha, ainda que não tenha saído vitorioso. Além disso, Bruno já fez filmes no mercado americano e é um diretor bem visto por lá.

Mas o fato é que, para o bem ou para o mal, os gringos gostam de películas que mostram a dura realidade brasileira, algo tido como exótico para eles. Mas é bem verdade também que o excesso de dureza não combina com os ainda conservadores membros da Academia e isso pode fazê-los torcer o nariz para o filme. Talvez Sandro seja demais para eles: abandonado demais, vilão demais, vítima demais. Depende da visão.  

Última parada 174 segue, enfim, a mesma premissa do documentário que o inspirou. Ambos mostram que aquele menino, que todos quiseram linchar após sua saída do ônibus, não tinha saídas também. Ou talvez tivesse, mas não teve as condições (educação, cidadania, carinho) para perceber isso. Em 2006, o caso da chacina da Candelária foi retratado com ótima reconstituição no programa da TV Globo Linha Direta Justiça. Nele, Yvonne Bezerra de Mello dizia que Sandro era o retrato de um Brasil que não funciona.

Não funcionou para ele, não funcionou para milhões de meninos como ele e vai continuar não funcionando para outros milhões. O filme mostra isso como novidade? Não, é claro que não. O boom de filmes sobre a violência urbana do Rio também não traz grandes novidades. Mas nos ajudam a ver aquilo que, muitas vezes, a população carioca e as autoridades do Estado teimam em não querer enxergar. Matar Sandro logo após o seqüestro não adiantou e não mudou nada. Vários Sandros continuam por aí.

Exibições do filme no Festival do Rio 2008:
Quinta-feira, 25 de setembro - Abertura do evento, no Cine Odeon
Sexta-feira, 26 de setembro - Palácio 1, às 17h30min.

Texto extraído do site Agência Rio de Notícias <http://www.agenciario.com/cadernoa/materia.asp?cod=51251>



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