





Quem tem boas idéias já conta com meio caminho andado para desenvolver um negócio próprio sem grandes gastos iniciais. É o seu caso? Então crie coragem e submeta um de seus projetos a uma incubadora de empresas. A partir daí você poderá contar com a assessoria para, em três anos, ter condições de voar sozinho de maneira segura. O Brasil tem hoje cerca de 400 incubadoras que asseguram os primeiros passos a empreendedores francamente inovadores. Mediante o pagamento de uma pequena taxa, de cerca de um terço do que se gasta com o aluguel de imóvel, o futuro empresário ganha um ambiente onde recebe assistência jurídica, administrativa e até financeira para se estabelecer.
"O foco é a inovação, mas a vocação é bem diversificada, indo desde a tecnologia da informação e comunicação (TIC) e serviços a eletroeletrônica, agronegócios, biotecnologia, mecânica e muitos outros", esclarece o presidente Guilherme Ary Plonski, da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec).
Hoje, quase 2.800 empresas estão incubadas em diferentes áreas do País, sobretudo em 23 universidades federais, 13 estaduais e sete católicas, além de 11 Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets), gerando mais de 30 mil empregos. A primeira incubadora data de 1984, em São Carlos, e até 1993 o crescimento na área deixou muito a desejar. "De 1994 para cá a expansão foi constante, na média de 25% ao ano. Não estamos correndo atrás de recordes olímpicos, mas é certo que o programa recém-lançado pelo governo vai dar uma boa alavancada no setor", admite Plonski.
Com recursos de R$ 1,3 bilhão a serem investidos nos próximos quatro anos, o Programa Primeira Empresa Inovadora (Prime) pretende beneficiar mais de 5 mil novos empreendimentos. Promovido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio de sua agência Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), ele elegeu 18 incubadoras, que vão se encarregar de garantir o sucesso dos novos empreendedores.
A taxa de sobrevivência das empresas que se submetem ao processo de incubação é de 80% (a média brasileira é de 78%, mas em Roraima, por exemplo, não chega a 50%). "A sobrevivência é muito pouco para o potencial que a incubação garante ao País. Vale dizer que, se 80% das que entram saem bem, 90% continuam a se desenvolver muito bem depois de graduadas", comemora o dirigente.
ENXUGANDO O CHÃO
Ficar atento ao link de incubadoras do Sebrae é o conselho que o gerente de unidade de inovação e acesso à tecnologia do Sebrae-SP, Marcelo Dini Oliveira, dá aos interessados em serem abrigados por uma incubadora. Isto porque periodicamente são publicados editais de convocação para candidatos à incubação. "Trata-se de um instrumento de desenvolvimento que definitivamente se consolidou, especialmente em São Paulo, onde temos 80 incubadoras, com mais de 1.000 empresas e 4 mil postos de trabalho no processo."
Prefeituras, institutos de pesquisa e universidades em São José dos Campos, Campinas e São Carlos são citados como exemplo de indutores à inovação de pequenas e médias empresas. "Na verdade, são bases para futuros parques tecnológicos", prevê.
Oliveira acha importante a criação de conselhos gestores em torno das incubadoras, com uma participação bem ampla, da prefeitura e universidade à Associação Comercial e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP). "Um terço dos projetos poderia ter característica mais local. Limeira, por exemplo, possui um parque de desenvolvimento local e regional. Lins também conta com boas experiências na área de desenvolvimento e Guarulhos mantém vários projetos de tecnologia e uma parceria recém-firmada com a Embrapa de apoio a novas empresas de base tecnológica agropecuária e à transferência de tecnologia."
Formado em odontologia, Fabiano Vilhena nunca quis ficar fechado num consultório. "Sempre sonhei com algo diferenciado. Queria ficar na minha área, mas voltado para o atendimento da saúde pública."Como resultado, fundou em 2005 a Oralls Saúde Bucal Coletiva, que incubou na Cecompi de São José dos Campos."
Recentemente a empresa se tornou graduada e um dos seus inventos, o kit escovinha, já é manuseado por meio milhão de crianças no Brasil todo e também num projeto-piloto em países como Moçambique, Angola e Emirados Árabes. Trata-se de um suporte plástico para 60 escovas infantis, 12 tubos de gel dental e uma caneta para identificar o aluno.
Vilhena recorda que a Oralls começou a ser imaginada quando ele saiu da faculdade em Alfenas, no Sul de Minas, e seguiu para Mato Grosso. "Queria um maior contato com a população, mas me sentia como que enxugando o chão com a torneira aberta. Não tinha como atender a todo mundo."
Decidiu, então, cursar o mestrado na Universidade de São Paulo, em Bauru (SP). "O kit coletivo de higiene bucal, apelidado de kit escovinha, foi justamente o fruto da minha tese de mestrado."
Premiado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2006, o kit naquela época já representava 60% do faturamento total da incubadora. Em pouco mais de dois anos, seu faturamento bruto chegou a R$ 1,5 milhão. "Trata-se de um produto de custo bem baixo. Ainda não tenho o retorno de quanto caiu a cárie entre a meninada que usa o kit, mas a pesquisa de satisfação é bem."
Graduada a empresa, Vilhena diz que a Oralls se manterá como associada para continuar recebendo assessoria da incubadora. E fora terá de pagar um aluguel no mínimo três vezes maior que a taxa de R$ 300 pela incubação.
Sem motivação, está fora
Até empresas experientes, com vários anos de atividade, podem recorrer a uma incubadora, caso queiram alterar sua rota, dar uma guinada e, especialmente, lançar produtos revolucionários em qualquer área. Por outro lado, as incubadoras podem exigir das recém- fundadas um período de pré-incubação de até 12 meses.
O processo de pré-incubação é visto como uma forma de aumentar as chances de viabilizar um novo negócio. "A pré-incubação não envolve recursos financeiros. Mas temos a figura do mentor de mercado, por exemplo, que é alguém que pode orientar os projetos com informações do mercado e geralmente faz um trabalho voluntário", destaca o coordenador de empreendedorismo tecnológico e pré-incubação de projeto Inova Unicamp, Paulo Lemos.
A Inova incorporou, em 2003, a Incamp incubadora da Universidade de Campinas (Unicamp) criada dois anos antes. Segundo Lemos, a pré-incubação pode ser considerada obrigatória por ajudar o candidato a empreendedor a fortalecer sua idéia de um novo negócio tecnológico. "Ele toma conhecimento da viabilidade do negócio em termos de mercado, de adequação da idéia para se transformar num novo produto ou serviço. É quando ele verifica de fato se terá condições de criar uma empresa, pois desenvolve um plano de negócios ou um estudo de mercado aprofundado."
Lemos reconhece que o bom empreendedor é aquele que faz, realiza, produz novos bens e serviços. "Mas também é certo que quanto mais bem preparado ele estiver, maiores tendem a ser as chances de sucesso de um novo negócio. Com dez empresas incubadas e 15 graduadas, a Inova procura estabelecer a rede de relacionamentos entre a Unicamp e sociedade em pesquisa, ensino e avanço do conhecimento.
A Inova é também é uma das promotoras da 1ª Feira e Sessão de Negócios de Empresas Incubadas, que ocorrerá entre 10 e 12 de setembro, no Centro Municipal de Eventos de Limeira. De caráter nacional, o evento está em busca de executivos, empreendedores e investidores ávidos por novos negócios, sem barreiras estaduais, para agitar o mercado de empresas incubadas.
"Tem de ter uma motivação muito forte, porque se não está fora. A minha foram os meninos." É assim que a engenheira mecânica Cristiane Ulbrich define a criação da BCS Tecnologia, incubada na Incamp desde 2005. Quando a incubação ocorreu, Cristiane estava grávida e agora que a empresa será graduada ela aguarda a chegada de mais um menino.
Com o marido Flávio e o cunhado Rogério (ambos também engenheiros mecânicos), Cristiane abriu a BCS para iniciar a produção na área médica. "Já temos 12 produtos estudados e três iniciados." A incubada recebeu o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) para fazer seu primeiro produto, que é pioneiro no País e vai facilitar a vida de médicos e beneficiar os pacientes. Trata-se de produto de prototipagem rápida, uma peça física para o médico planejar fielmente a cirurgia e que também pode servir de prótese.
Agora está na fase de regularização na Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), processo que deverá levar mais dois anos.” Nesse tempo estamos participando de feiras internacionais para exportar nossos produtos." Cristiane recomenda a quem tem boas idéias buscar o apoio de uma incubadora. "Mas você deve estar bem focado e saber aproveitar ao máximo tudo o que ela oferece. Afinal, pagamos R$ 700 de aluguel por 25 metros quadrados ao longo dos últimos três anos. Por enquanto nenhum dinheiro entrou. Só saiu. Por isso é importante ter um pé-de-meia. A agência de fomento patrocina um projeto, mas o resto é por conta e risco do empreendedor. Ou seja, é preciso planejar tudo direitinho para não ter problemas. “Não se pode contar com a sorte", ensina.
Santo casamenteiro
O próximo passo das incubadoras será um programa de incentivo à abertura de franquias. Discussões nesse sentido já estão em andamento. "Vivemos um momento de consolidação do movimento de incubadoras", comemora o gerente de inovação do Sebrae Nacional, Paulo Alvim.
Ele reforça a tese com os três editais do órgão este ano: uma chamada para que as incubadoras atuem como ponto de atendimento empresarial; outro para apoiar 40 incubadoras a dobrarem o número de incubadas e o terceiro para aumentar o faturamento de incubadas. E garante que os resultados também serão palpáveis. "O transbordamento do conhecimento fornecido pelas incubadoras; um aumento no número de pequenas empresas incubadas e a sustentabilidade com incremento de nossas vendas e faturamento devido ao maior número de estratégias."
Em geral, as incubadas permanecem por até três anos no abrigo das incubadoras. Mas é possível esticar esse prazo por mais um ano. "A verdade é que muitas saem até antes dos três anos por força do mercado. Ou seja, elas crescem tanto com a ajuda da incubadora que precisam sair para não entravarem o desenvolvimento."
Credibilidade perante clientes e parceiros é um dos motivos que a RTP Indústria de Equipamentos de Santa Catarina aponta como razão para manter-se incubada. Os três sócios, que se conheceram na engenharia mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina, primeiro abriram uma empresa que prestava consultoria na área de energia. "A partir daí veio a idéia de fazermos um projeto de gerador de energia para biogás. A finalização do projeto foi justamente a abertura da RTP", conta o responsável pelas gerências administrativa e de P&D, Alexandre Ryoiti Takahashi.
Há exatos 12 meses, quando Takahashi, Rafael Girardi Pulgar e Cláudio Rebello Rucker estavam com o produto desenvolvido, decidiram ingressar na incubadora Celta da Fundação Certi. "Fizemos a coisa certa, pois ela tem nos ajudado muito. Nos dá estrutura, treinamento, parceria e orientação na busca de recursos. Em troca pagamos uma taxa de aluguel que cobre alguns gastos. Fora disso, os altos custos tornariam o nosso negócio inviável", acredita.
A RTP desenvolve um projeto de biogás em granjas produtoras de suínos e busca parceria com empresas de crédito de carbono e também com a Sadia e Perdigão. "Temos um protótipo em operação numa granja de um integrado da Perdigão. Alguns equipamentos estão em negociação e o escritório já está montado. Buscamos agora linhas de financiamento, porque o equipamento tem custo alto (de R$ 70 mil a R$ 120 mil) e temos de nos preparar para atender aos clientes." A empresa conta com o trabalho de oito bolsistas, programa três vagas para o protótipo "e, se tudo der certo, chegaremos a dez vagas nos próximos anos".
Campina Grande, na Paraíba, e São Carlos, em São Paulo, foram os primeiros Estados a contarem com o que, há mais de 20 anos, era encarado como Parque Tecnológico. Hoje ele está presente em diferentes áreas do País e sempre voltado para o setor em destaque na região. "Eu defino o parque como o santo casamenteiro que faz a união entre a academia, a iniciativa privada e o governo em prol de uma área escolhida. No nosso caso, a energia", simplifica o diretor-presidente do Sergipe Parque Tecnológico (SergipeTEC), José Teófilo de Miranda.
Basicamente, o parque de Aracaju é uma associação civil sem fins lucrativos, que se propõe a gerar emprego e renda no Estado incentivando o empreendedorismo e a inovação. Para isso conta com três incubadoras e 12 incubadas. "Já temos entre as graduadas três de TI que aqui permanecem produzindo softwares de gestão de empresas. Uma se destaca pelo sistema que desenvolveu para lojas comerciais que querem trabalhar via web. Grandes lojas de materiais de construção aprovaram e adotaram o programa", informa.
Miranda cita com muito orgulho o fato de haver fila de espera de empresas interessadas em entrar no parque. "Está lotado. Estou levando a administração para a garagem para abrir espaço pelo menos duas empresas. Mas vamos logo providenciar a sua expansão", adianta.
Aos interessados em terem a assessoria, que inclui cursos, palestras e toda espécie de consultoria e aproximação a agências de fomento, o primeiro passo é procurar o Sebrae mais próximo (www.sebrae.org.br) ou consultar o site www.amprotec.org.br. ]
O Estado de S. Paulo de 27/08/2008
Editoria: Sua Empresa